Edição 97 de Novembro de 2005
Gestão da Conservação
Diante da demanda de aumento de eficiência e produtividade, além da procura por redução de desperdícios operacionais, usinas têm investido em sistemas de planejamento da manutenção – o conceito de MPT ganha destaque (e interesse)
Moenda da usina São Martinho: potencial de ganho com a MPT é considerado enorme
Filha da globalização, a competitividade empresarial tem exigido a contínua otimização de processos e recursos. Essa nova ordem comercial demanda a avaliação sistêmica de métodos consagrados nos processos produtivos, e incentiva um ambiente de mudança permanente.

Mas equivoca-se o executivo que investe recursos e planejamento apenas na aquisição de novas tecnologias para manter-se competitivo. Além de respaldar a produção, a empresa bem sucedida também valoriza o planejamento da manutenção de máquinas e equipamentos para crescer e se estabilizar no mercado.

“A manutenção aumenta a competitividade. Se observarmos os quatro fatores chaves da competitividade (qualidade, custo, prazo e produtividade), veremos que a manutenção influencia fortemente em todos os fatores”, garante o engenheiro consultor Rubens Lima, da Advanced Consulting &Training.

A manutenção impacta fortemente no custo de conversão e, conseqüentemente, no valor final do produto. Segundo o “Documento Nacional 2005” da Abraman (Associação Brasileira de Manutenção), 4,1% do faturamento bruto das empresas brasileiras são gastos com manutenção – desse volume, 28% representam despesas com manutenção corretiva.

“Esse índice mostra o potencial de redução de custos com a implantação de um bom sistema de manutenção. Além disso, a baixa confiabilidade dos equipamentos pode comprometer os prazos de entrega da empresa, gerando a necessidade de manter estoques de segurança, que comprometem também o custo”, defende Lima.

Com perspectivas invejáveis de crescimento, tanto na esfera nacional quanto no exterior, o setor sucroalcooleiro já começa a pensar a manutenção de maneira diferente – ainda impera nas usinas a metodologia corretiva. Com larga experiência no segmento, o consultor Walter Rodrigues, da Visão Consultoria, assegura que para suprir as novas demandas do mercado, a agroindústria canavieira não deve investir apenas em aumento de produção, elevando o volume de área cultivada, e carregando, com isso, todos os custos decorrentes.

Segundo Rodrigues, o setor deve atuar fortemente na elevação da produtividade no campo e na indústria para garantir competitividade. Nesse contexto, a manutenção adquire uma conotação fundamental, com pelo menos dois grandes desafios: “O primeiro é garantir uma alta disponibilidade dos equipamentos com planos de manutenção eficazes. Mas não podemos focar apenas este lado da moeda. No mercado de commodities, principalmente, o custo operacional é decisivo para a competitividade e sobrevivência da empresa. Daí o segundo desafio da manutenção: gerar disponibilidade com o menor custo possível”.

Um sistema eficaz de manutenção implica na aplicação de técnicas modernas. Empresas de vários setores industriais têm utilizado eficientemente a MPT (Manutenção Produtiva Total). Pouco conhecida no segmento sucroalcooleiro, a metodologia começa a ganhar os primeiros adeptos – e, principalmente, a gerar bastante interesse.

Foco em perdas

O Programa de MPT é totalmente voltado para melhoria de produtividade, qualidade e redução de desperdícios operacionais, direcionado exclusivamente para os responsáveis com a operação, com o objetivo de torná-los mais comprometidos com os resultados.

A aplicação correta da metodologia pode oferecer ganhos de produtividade, qualidade, custo, entrega, segurança e moral da equipe. “A MPT é um modelo de gestão focado em perdas (identificação, priorização e eliminação) e usa o próprio ativo na reeducação das pessoas, daí o resultado tão expressivo na aplicação das técnicas”, diz o engenheiro Antonio José de Freitas Neto, diretor da Loss Prevention Consulting & Training.

O programa surgiu no Japão durante a década de 70 para poder melhorar o nível de manutenção dos equipamentos. Depois da Segunda Guerra Mundial, as empresas japonesas precisavam produzir e exportar, mas antes tinham que reverter a reputação de fabricante incompetente, rótulo derivado da comercialização de bens de má qualidade antes da Segunda Grande Guerra.

Foi dentro desta procura por qualidade que se desenvolveu a Manutenção Produtiva que ao longo dos últimos 50 anos vem evoluindo de uma metodologia de manutenção para um completo sistema de gestão empresarial – e ganhando espaço em todo o mundo.

A MPT é uma metodologia relativamente nova no Brasil, as primeiras aplicações sistêmicas foram realizadas início dos anos 90. Na indústria sucroalcooleira, as iniciativas precursoras de implantação de algumas técnicas foram testadas no final da mesma década. “O potencial de ganhos neste segmento tanto na indústria como na área agrícola são imensos, podendo ser o diferencial de competitividade e sobrevivência sadia deste tipo de negócio”, acredita Freitas Neto.

Pioneira, a São Martinho implantou a MPT na área agrícola da usina em 1997, com um trabalho focado em manutenção autônoma. A temporada 05/06 marca a terceira safra da empresa com a aplicação da metodologia também na parte industrial. A outra unidade do Grupo, a Iracema, também vive processo de introdução da técnica.

“Hoje a diretoria encara o conceito como gerenciamento total do lucro da empresa e abrange todas as áreas da unidade São Martinho: segurança, operação, manutenção, controladoria, projetos, entre outras”, destaca o técnico em eletrotécnica, Kleber Fernando Sauer Bidese, suporte de MPT da São Martinho.

Bidese estima que a consolidação da metodologia na São Martinho leve de 3 a 4 anos. Os efeitos sentidos ainda são incipientes, mas algumas melhoras já são mensuradas. “Os resultados positivos ocorreram principalmente com a redução quase total das paradas de equipamentos, melhoramento da eficiência térmica de caldeiras, diminuição da quantidade de varredura no ensaque, que a gente tinha um índice muito alto, e diminuição do consumo de lubrificantes, dentre outros”, enumera.

Segundo Bidese, com a utilização de métodos de gestão como MPT, a usina visa resultados finais em redução de custo, aumento de qualidade, produtividade, redução de acidente, participação das equipes de trabalho com mais entusiasmo.

Todos os especialistas ouvidos pela reportagem de ALCOOLbrás foram unânimes em enumerar os benefícios proporcionados pela metodologia: elevação da produtividade, redução de custos, melhoria dos índices de qualidade, elevação da confiabilidade dos processos, redução dos casos de acidentes e doenças ocupacionais e redução dos impactos ambientais.

Cases de sucesso de empresas de outros setores demonstram que a obtenção dos resultados oferecidos pela tecnologia é possível. Práticas mundiais recomendam que para cada R$ 1 investido, o retorno deve ser 10 vezes maior, uma média de empresas no mundo todo que implementaram o programa.

Uma cervejaria nacional, cujo nome será mantido em sigilo por solicitação da empresa, conseguiu em três anos um resultado expressivo: para cada R$1 investido - seja em treinamentos, consultoria, quadros de gestão, controles visuais - a companhia deixou de gastar R$ 17.

A Advanced Consulting &Training tem entre seus clientes uma empresa que, no início da implantação da MPT, seu índice de refugo era de 12%. Seis meses após o início da implantação das rotinas de manutenção dos equipamentos, as falhas reduziram e o índice de refugo caiu para cerca de 4%. “Isso mostra que grande parte dos problemas de qualidade ocorria em decorrência de falhas nos equipamentos”, comenta Rubens Lima.

Quebra zero

A redução de falhas, embora objetivada, é o caminho percorrido para o alcance da meta principal: perda zero - acidente zero - quebra zero - falha zero - defeito zero. “A quebra pode ser bastante minimizada quando existe uma análise criteriosa dos modos de falha e de defeitos através do estímulo à análise e a total integração corporativa particularmente nas áreas que afetam o processo (operação, manutenção e materiais)”, afirma o consultor Lourival Augusto Tavares, presidente do Comitê Panamericano de Engenharia de Manutenção.

A quebra ou perda zero, entretanto, é pouco aceita entre os ocidentais, o raciocínio geral é de que máquina quebra mesmo. Já para o oriental, conforme o ideograma japonês, a falha é conseqüência de danos provocados direta ou indiretamente pelo homem.

Para Walter Rodrigues, ao introduzir a TPM, a empresa deve considerar fortemente a possibilidade da quebra zero e atuar na preservação das condições ideais de operação, mantendo as condições originais dos equipamentos, eliminando suas anomalias, ou seja, pequenos desvios que ainda não provocaram a quebra do equipamento. “Agindo desta forma estamos atuando sempre nas causas das quebras antes que elas ocorram. A falha zero definitivamente não é apenas uma utopia”, concorda Rubens Lima.

Na São Martinho, os técnicos trabalham para que a meta se transforme em realidade. “Somos do tamanho dos nossos sonhos. Se não desejarmos com uma posição muito boa no futuro nunca vamos chegar lá. A quebra zero tem que ser uma busca constante. Não podemos nos contentar com índices baixos de quebra, temos que buscar o zero”, revela Bidese.

Outras usinas começam a despertar para o mesmo objetivo. A reportagem de ALCOOLbrás apurou que as unidades Santa Cruz, Equipav, Usinas Barra Grande, São José e Açucareira Quatá estão buscando informações mais detalhadas sobre o programa MPT.

LEIA MATÉRIA COMPLETA NA EDIÇÃO IMPRESSA
NA EDIÇÃO IMPRESSA

• Acontece nas Usinas
Nova unidade do Grupo Santa Elisa, Usina Continental começa a operar na próxima safra

Antes de nascer, Eldorado já tem projeto ambiental
 

• Atualidades
Novas variedades do IAC devem ser colhidas no meio e fim de safra
 

• Retrospectiva
5ª Feimam apresenta equipamentos e serviços para a indústria

Brasiltec 2005 mostra progresso nacional em inovação tecnológica
 

• Agronegócios
Banco do Nordeste destina R$ 1 milhão paea apoio a projetos produtivos solidários